sexta-feira, 3 de julho de 2009

Dez assistentes para nove vereadores

Fato que chamou a atenção da população ocorreu na última terça-feira, dia 1°, quando o vereador Geraldo Baldissera (PDT), em entrevista à rádio Cidadania 104, 9 FM, garantiu que o partido não dispunha de assessor parlamentar na Câmara Municipal. Contudo, o presidente da casa, Acirton Costa (PMDB), fez a contratação de 10 pessoas para ocupar os cargos disponíveis. Ou seja, um dos vereadores estaria com dois auxiliares em exercício. Cada um recebe cinco pisos, o que corresponde ao valor exato de R$ 2.283,90.

Muitas são as especulações sobre o assunto. Corre nos bastidores, por exemplo, que dois contratados foram de indicação de um mesmo vereador. Sobre isso, Acirton nega a informação e afirma apenas que as contratações são de responsabilidade da presidência da Câmara, independente dos vereadores. “A indicação de Ademir Francisco foi feita por mim”, completa ele sobre o nome que estaria sobrando em relação aos legisladores eleitos. Durante a semana, Ademir teria sido anunciado como subordinado de Darlan Carpes (PP). Mas, segundo Acirton, somente Danúbio Vieira será assistente do progressista.

Questionado sobre a função do décimo assistente, o presidente afirma que essa é uma questão que será definida por ele nos próximos dias. “No projeto está definido a contratação de 10 Assistentes Parlamentares para a Câmara, e não para os vereadores. O Ademir ficará a disposição da Câmara, haja vista que o PDT não terá, de forma alguma, um Assistentes Parlamentar, pelo menos até que eles voltem às rádios para divulgar a necessidade deste profissional”, garantiu.

“Não vou voltar atrás. Este é um posicionamento do partido”, pontuou Geraldo Baldissera. Ele atualmente é vereador pelo PDT. Mas, quando o projeto sobre as contratações foi aprovado, a sigla era representada por Diego Vittorassi, que está no comando da Secretaria de Planejamento. Na época, o PDT já havia se pronunciado contra, pois considerava a proposta legal do ponto de vista jurídico, mas não moral, principalmente por causa das dificuldades financeiras anunciadas pela Prefeitura na época.


A DATA DAS CONTRATAÇÕES, OS VEREADORES E OS ASSISTENTES:

01/04 - chefe de gabinete - Jucemar de Souza Fernandes
01/04 - Itamar da Silva (PP) - Sadi Osvaldo Januário
01/04 - Joacir Domingos Pereira (PP) - Paulo Silveira
01/04 - Osmar Manoel dos Santos (PP) - Francisco Hortêncio Motta
04/05 - Antônio de Mello (PMDB) - Osmar Silvestre
04/05 - Acirton Costa (PMDB) - Ronei Agenor da Silva
04/05 - Darlan Bitencourt Carpes (PP) - Danúbio Vieira
05/05 - André Mazzuchello Jucoski (PSDB) - Adêmio João Pavei
02/06 - sem uma função definida - Ademir Francisco
15/06 - Jurê Carlos Bortolon (PMDB) - Edmilson Borges
15/06 - Neuzi Berto Silveira (DEM) - Valdelir Da Rolt


Fonte: Kelley Alves e Lucas Lemos


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R$ 228,39 mil é o valor mensal que a Câmara Municipal paga por todos esses Assessores Parlamentares. Ou seja, R$ 4.587, 80 é o custo que SÓ UM vereador tem no Legislativo, já que dispõe de dois assessores. O salário de um vereador corresponde ao valor de R$ 4.501,11, sendo o do presidente da Câmara 50% a mais.
Raciocínio lógico: um suposto vereador estaria custando aproximadamente R$ 9.088, 91 aos cofres públicos, diga-se cidadão comum que, com muito esforço, paga os seus impostos.
Ah, mas isso não tem problema algum, afinal o nosso Sistema de Saúde está em ótimas condições, as estradas e ruas muito bem pavimentadas. Içara está esbanjando dinheiro. O que tem demais uma graninha para ser investida em varal de emprego?

sábado, 23 de maio de 2009

Balneário Rincão: emancipação baseada em interesses partidários


Quem acompanha frequentemente os acontecimentos do município de Içara não precisa de muito esforço ou boa interpretação de mídia para estar ciente de que nesta região não se fala em outra coisa senão a possível emancipação do balneário Rincão, que depois de tantas reivindicações se tornou mais próxima da realidade.

Diante deste cenário as siglas partidárias desta região estão agitadas nos bastidores a fim de definir os possíveis candidatos tanto para as eleições majoritárias quanto para as proporcionais. E, por incrível que pareça, o povo ainda não tem certeza deste desmembramento. Os políticos mal sabem explicar em que situação está este fato. Contudo, praticamente todos os partidos já sabem quais serão os candidatos da possível eleição. Quem tem um pouco de conhecimento e está acompanhando de perto esta situação sabe no máximo que a emancipação depende do Supremo Tribunal Federal, que deve fazer a apreciação da Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADIN 2737) para assim o pleno do STF definir a situação dos municípios criados até dezembro de 2006 e cujas leis foram convalidadas pela Emenda Constitucional nº. 57/08, elevando os distritos de Pescaria Brava e Balneário Rincão a categoria de municípios, junto a outras 49 cidades que já foram criadas e dependem desta aprovação.

No meio de todo esse rolo, a população, que vive na correria do dia-a-dia e mal tem tempo para ler jornais e manter-se informada, certamente estará se perguntando: “Estaria o Rincão preparado para ‘andar com as próprias pernas’? Quais seriam as vantagens e as desvantagens deste desmembramento e baseado em quê?”.

Ora, se o povo é leigo a este assunto já que não tem conhecimento da justiça eleitoral e muito menos dos pontos favoráveis e desfavoráveis, ninguém melhor que os próprios políticos, que já se acham tão capazes de representar esta região, para explicar tudo o que precisam saber. Mas infelizmente a única preocupação desses partidários é a de “ocupar”. Afinal, para eles ficará muito mais fácil a população estar leiga ao assunto e simplesmente votar em seus nomes.

Um partido de responsabilidade em primeiro lugar se preocupa com o povo que representa. Antes das eleições é preciso a conscientização, senão todas as ideologias partidárias estarão se desmanchando (o que é comum no Brasil). Essa cobrança começa pela sociedade, por cada um de nós.

domingo, 10 de maio de 2009

Um exemplo de mãe

A surpreendente história da mãe de sete filhos, sendo quatro com deficiência mental, que superou todos os limites da falta de condições financeiras e hoje, aos 81 anos, vê que tudo valeu a pena.

por Kelley Alves

Ela mora em uma comunidade pequena e com pouca estrutura. Tem sete filhos, sendo quatro especiais, e não tem uma das vistas.


Por todos esses motivos, a ex-colhedora de carvão, Filomena Manoel Sebastião, teria motivos suficientes para desanimar no meio da caminhada. Contudo, ao chegar à pequena residência, com aproximadamente 60 m² e que abriga mais de dez pessoas, a simpatia e a alegria de dona Filomena contagia toda a comunidade de Barra Velha.


Apesar de ter quatro filhos com deficiência mental, Joanidi, hoje com 60 anos, Jovilina 58, Antonio 55 e Laudelino 51, a satisfação e o prazer que a aposentada tem em cuidar de cada um são motivos para todo o bairro ter a certeza de que dona Filomena é o exemplo da figura materna que deveria ser seguido por todas as mães Brasil a fora. “Ela nunca deixa a peteca cair, está sempre cuidando dos filhos com todo o amor e carinho. E mesmo diante das dificuldades ela está sempre de bem com a vida”, contou a presidente do clube da terceira idade da Barra Velha, Maria do Carmo Prudêncio.


Com a voz rouca e cansada, a dona de casa em nenhum momento demonstrou tristeza. Pelo contrário, é com alegria e satisfação que ela conta a trajetória da família. “Todos os meus filhos deficientes vieram ao mundo através de uma parteira. Depois que eles já estavam maiores foi que eu descobri o problema que tinham. Mas isso não foi motivo para desânimo, hoje eu os vejo como as minhas eternas crianças e é assim que todos aqui do bairro vêem cada um”, contou dona Filomena, sempre de olho nas “crianças” para ver se estava tudo certo.


“Eu tenho orgulho dos meus filhos e nunca pensei em desistir deles. Penso que muitas mães são tristes porque tem os filhos nas drogas e largados no mundo. Os meus, pelo menos, estão aqui, debaixo dos meus olhos”, completou a mãe orgulhosa. No momento em que falava estas palavras, dona Filomena, por três vezes, desviou o olhar para trocar palavras com o neto, filho de uma das filhas, que é adotiva, e ajustar as mangas da camiseta de uma das filhas especial que passou em direção ao quintal da casa.


Ela perdeu uma das visões quando trabalhava como colhedora numa mina de carvão. Na época a dona de casa vivia condições precárias. Por este motivo não reivindicou os direitos e seguiu trabalhando. O tempo passou até que dona Filomena perdeu de vez a vista do olho direito ficando impossibilitada de trabalhar. Nessa época ela conheceu um homem, que foi quem criou as crianças e ajudou a pagar todas as contas da casa. “Ele cuidou de todos como se fosse o próprio filho deles”, conta emocionada. Ela era viúva quando encontrou o segundo marido. Para a tristeza de dona Filomena, o pai adotivo, que segundo ela, fez das crianças motivo de alegria, também faleceu, já que tinha problemas no coração.


O cenário triste não fez a viúva desanimar. Cada problema era motivo ainda maior para ela está mais próxima dos filhos. Aconteceu que sua filha mais velha, que não é especial, também perdeu o marido e teve que voltar para a casa da mãe. “Hoje ela é o meu braço direito aqui em casa, ajuda a cuidar das crianças e me auxilia nos serviços da casa”, contou. Cada um dos filhos da dona de casa tem uma história. E todas muito bem vividas pela “maezona”.


Mesmo já tendo seis filhos o coração de mãe foi grande o suficiente para acolher mais uma criança desamparada. Certo dia uma maça grávida apareceu na casa da família afirmando que abortaria a criança por não ter condições de criá-la. Dona Filomena e o filho mais velho, Astor Sebastião, adotaram a criança que atualmente é casada e deu três netos à família. “Meus netos vivem alegrando esta casa. Nossa família é unida apesar de todas as dificuldades financeiras que já enfrentamos”, contou orgulhosa.


A alegria da casa, segundo a “super-mãe”, é o filho mais velho. “O mais doente dessa casa é aquele ali”, contou apontando para o filho mais velho que é perfeitamente saudável. A explicação só veio depois de uma conversa com Austor, que mostrou que humor é o que não falta para levar alegria à família. “Minha mãe vai direto para o céu. Com tanta bondade é difícil acreditar que o ‘inferno’, de fato, existe”, disse o filho mais velho, orgulhoso.


E mesmo morando numa casinha num bairro pobre e quase não conhecido no município, ao questionar sobre o desejo da família, dona Filomena é direta: “Quero saúde para continuar cuidando dos meus filhos”.



Feliz dia das mães para aquelas que são educadoras exigentes e zelosas. Para todas que, naturalmente, herdaram de Deus o dom mais lindo: o de gerar a vida!

sexta-feira, 8 de maio de 2009

PP quer nova divisão do distrito

Na próxima terça-feira, dia 12, o balneário Rincão vai ser palco de mais uma reunião entre os integrantes do partido progressista de Içara. De acordo com o presidente da sigla, Arnaldo Lodetti, a pauta da reunião será a apresentação de um mapa apresentando uma nova divisão entre Içara e a praia.

“Içara não foi feliz nesta divisão. Ficamos em dúvida se a maneira como foi feita essa divisão é coerente”, explicou Lodetti. “E é por isso que temos uma nova sugestão e esta será apresentada não só ao Partido Progressista, mas também às outras siglas”, completou.
O descontentamento, de acordo com o presidente, é relacionado às lagoas e à, pelo menos, uma saída para o mar. “Não queremos que a cidade perca a sua característica litorânea, que hoje é uma forte característica”, explicou. Em relação às lagoas, atualmente o distrito dispõe de sete lagoas. A proposta do novo projeto, elaborado por Lodetti e três engenheiros, Içara ficaria com duas destas lagoas.

Um outro ponto comentado pelo progressista foi a divisão das estradas. “Já que, supostamente ficaríamos com uma entrada para a praia, o Rincão ficaria com acesso à BR-101”, propôs.
Todas essas questões serão debatidas pelo PP na próxima terça-feira às 19h em local ainda não definido. Segundo Lodetti outras siglas já têm conhecimento e concordam com a nova proposta. “Gente do partido dos Democratas e de outros, até mesmo do PMDB concordam com a nova divisão”, revelou.

Em relação à participação do PP nas eleições do Rincão os nomes articulados pelo partido são: José Luiz Búrigo, Francisco Hortêncio Motta e José Carlos Damolin da Costa. “Nós temos estes nomes, mas só pensaremos nisso quando tivermos a certeza que o Rincão realmente será emancipado. Não existe nenhuma garantia!”, questionou deixando clara sua oposição pessoal em relação à emancipação do balneário.

A proposta da nova divisão já está pronta e colada na sala do escritório de Arnaldo Lodetti. A atual divisão está grifada em laranja e a nova proposta em amarelo.

Cirurgia plástica: quando o sonho vira pesadelo

Beleza e desenvoltura é o sonho de qualquer mulher, especialmente as brasileiras. Para isto, a sociedade impõe os padrões de beleza que devem ser seguidos caso a figura feminina queira ser reconhecida esteticamente. E é justamente para alcançar esse reconhecimento que os profissionais de cirurgias plásticas movimentam milhões em todo o país.

Uma lipoaspiração hoje, uma prótese amanhã, uma redução mais tarde... até que, não encontrando a satisfação pessoal, a mulher poderá ter sérias conseqüências.
Isso porque alguns profissionais da área da saúde, por verem o lucro que uma cirurgia plástica pode render, acabam ingressando no nicho sem estarem preparados. Esses “médicos” cobram preços abaixo do valor padrão o que atrai ainda mais as aspirantes à bela imagem com baixo custo. O resultado disso pode ser sérias deformações, infecções hospitalar e até a morte do paciente.


Quem tem em mãos a vida, deve ser competente para isso. Imagine você com um nariz em sua frente: seu dever é deixa-lo bonito e qualquer erro milimétrico pode ser irreversível. Você foi pago (e não foi pouco) por isso, portanto sua tarefa é adequar a sua profissão ao “sonho” do seu cliente.


A relação do cirurgião plástico com seu paciente pode sim ser considerada de consumo. Esses profissionais só responderão pelo resultado não atingido nos casos de cirurgias estéticas. Nas cirurgias reparadoras, que são aquelas que visam a reconstrução nos casos de acidentes ou doenças, por exemplo, a responsabilidade dos cirurgiões só acontecerá quando verificada a culpa na sua atuação. Nesse caso, invocar a aplicação do Código de Defesa do Consumidor para responsabilizar cirurgiões plásticos, é absolutamente normal, principalmente nos casos em que eles se comprometem com o resultado.


O pior é quando, mesmo com todas as medidas cabíveis, a situação é irreversível para uma mulher que, ontem era saudável e de repente se acordou e se viu com sérios problemas, não só estéticos, mas na saúde física e até psicológica, dependendo do caso. Por estes riscos, o conselho para aquelas que pretendem passar por esta experiência é a prevenção, ou seja, a busca por uma clínica adequada, sabendo que qualquer cirurgia, por menor que seja, implica em risco à saúde. Por este motivo, todos os quesitos (custo, médico, clínica e necessidades) devem ser cuidadosamente analisados, a fim de evitar tragédias e transtornos. Caso seja tarde demais e a ação já tenha causado as conseqüências, em princípio, poderão ser responsabilizados os cirurgiões e as clínicas nos termos do Código de Defesa do Consumidor, notadamente nos casos de imprudência e negligência.

quinta-feira, 30 de abril de 2009

Sobre o possível reajuste nos salários dos deputados Federais


Depois de terem uma redução de 20% na cota aérea, a intenção dos deputados é defender uma proposta que aciona os benefícios mensais aos salários que aumentariam de R$ 16,5 mil para 24,5 mil. Isso significa dizer que, depois de perderem os benefícios que garantiam passagens e outras regalias às famílias, os parlamentares agora querem aumentar a renda mensal esperando compensação pela decisão dos líderes.


As discussões sobre este assunto são em torno do cenário dramático do qual a população vive atualmente. A crise financeira, que tem assustado as pessoas, não barra a Constituição a estabelecer aumento para deputados estaduais e vereadores.


A outra indignação da sociedade envolve, atualmente, o número de pessoas que passam fome no mundo. Este registro aumentou em 2008 para 963 milhões, contra 832 milhões armazenados em 2007, segundo o último relatório da ONU – Organização das nações unidas - anunciado pelo diretor da FAO, Jacques Diouf em janeiro deste ano. Neste episódio, os parlamentares, que circulam com as famílias de um lado para outro em aviões de primeira classe, o retrato da pobreza é desconhecido na Câmara Federal, que nada tem feito para mudar esta realidade.


Se de um lado a passagem de avião é “merecida” aos deputados, do outro, o direito, que inclui a melhor distribuição de renda do país, é ignorado pela política brasileira.
Atualmente os gastos dos senadores são de R$ 22 milhões ao ano. E se as ações na Câmara continuarem no mesmo ritmo esse número só tende a aumentar . E na outra cena do Brasil, o número que corresponde à fome no país, automaticamente também aumentará.

domingo, 26 de abril de 2009

Sobrevivência dentro de oito metros quadrados


A história de Ricardo Tereza, o homem que, aos 20 anos, contraiu o vírus HIV e desde então, sem condições de locomoção, passa os dias dentro de uma pequena residência na comunidade Mirassol.


Por Kelley Alves



A aproximadamente 186 km de Florianópolis, um município chamado Içara comanda o distrito Balneário Rincão, que traz veranistas de toda a região na temporada do verão. A praia possui atrativos turísticos que, ao longo dos anos, levou o nome do Rincão a todo o estado. Em 2008 e começo de 2009, shows nacionais da cantora Ivete Sangalo e do cantor Daniel reuniram aproximadamente 60 mil pessoas, destacando ainda mais o local.


Contudo, uma pequena comunidade (pequena em relação à importância) não pôde estar nesses shows. A maioria nem soube da existência desses eventos.


O bairro Mirassol, apesar de ser um dos locais do balneário, vive a margem de todo lazer e atrativos turísticos que a cidade possui. É que a pobreza e a situação precária em que aquelas pessoas vivem são suficientes para mostrar que cada uma tem uma árdua tarefa dia-a-dia: lutar pela sobrevivência. Shows, laser e diversão não existem quando a fome e a saúde estão em primeiro lugar na vida do ser humano.


Ao entrar na vila, qualquer cidadão comum chegaria à conclusão que aquelas pessoas foram esquecidas pelo poder público.


Ricardo Tereza dos Santos tem 41 anos e é um dos integrantes desta comunidade. Se a maioria dos moradores deste lugar vive presa a um espaço pobre e sem estrutura, Ricardo não tem nem a oportunidade de conhecer o bairro em que mora.


Fui até a presidente da associação de moradores que me encaminhou à “casa” do cidadão. Caminhando pela pequena comunidade pude perceber o quanto as casas são próximas umas das outras, de maneira apertada e agoniante. Isso para que o espaço seja suficiente para abrigar todas aquelas famílias. As moradias são improvisadas com madeiras que servem de “tapa buraco”. Como se trata de praia, uma parte do local é caracterizada pelas dunas que finalizam a vila. Algumas habitações ainda são construídas perigosamente sobre essas areias, o que é proibido em qualquer município (para isso serve o plano diretor de toda cidade).

Ambientalistas de todo o mundo alertam sobre o perigo, para o meio ambiente, de construções em cima das dunas. Os sumidouros das casas acabam comprometendo o lençol freático responsável pelo abastecimento de água para a população.

De repente, me deparei com uma “meia água” de mais ou menos 8 m². Ela estava absolutamente fechada. Parecia não ter ninguém, mas o morador que foi encarregado de me levar ao local garantiu: “é aqui que o Ricardo mora!”. Ao lado, havia um vizinho que, residente de uma casa um pouco maior, dava água ao cachorro que latia desesperadamente.


- O Ricardo Tereza está em casa?


- Sim! Ele sempre ‘ta’ em casa, moça! Mas se o irmão que cuida dele não “tiver” ali, ele não pode abrir a porta. Mas hoje cedo ele ‘tava’ aí.


Finalizando a frase, ele largou a mangueira se direcionando para o muro que divide as duas casas. Com uma voz alta e firme, ele gritou: “Charles!”. Não sendo respondido, o vizinho tentou por três vezes (parecia não desistir enquanto não me ajudasse). De repente, uma voz:


- Que foi?


- Tem uma moça aqui querendo falar com você.


Depois de mais ou menos um minuto e meio, o cidadão chamado Charles abriu a pequena porta da meia-água. Assustei-me ao notar o zíper e o botão da calça jeans, que ele vestia apressadamente ao caminhar até o portão, estavam quase impossíveis de ser fechados. Descendo uma escadinha de madeira improvisada na porta, ele parou e finalmente conseguiu me atender no portão.


Apresentei-me falando do meu interesse em conhecer o irmão dele:

- Agora ele “ta” dormindo, moça.


Com um pouco de insistência, consegui entrar no local. Antes ele alertou:


- Não repara “na” minha casa!


Charles é um mulato de 40 anos com olhos pretos e arregalados, boca fina e nariz achatado. Ele estava sem camisa e com uma calça jeans desbotada e rasgada nas barras. Andava descalço e eram notáveis as feridas que, praticamente, cobriam os seus pés. Percebendo que notei as feridas ele disparou:


- Aqui no bairro tem muito bicho-do-pé, moça. A prefeitura até veio aqui “botar” remédio, mas não mudou muito!


De acordo com o Podólogo Orlando Madella Jr. o bicho-do-pé é uma pulga feminina de nome científico Tunga penetrans, que se aloja na pele para se alimentar do sangue e pôr ovos. É uma infecção caracterizada por inchaços dolorosos localizados principalmente ao redor de onde o inseto penetrou, sob as unhas do pé nas partes mais moles ou entre os dedos do pé. Pode-se pegar o bicho-do-pé em qualquer local do corpo. As larvas são de vida livre, sendo encontradas em habitações de chão de terra, em solos arenosos e praias, mas sempre em locais sombreados. O adulto (pulga) possui coloração marrom avermelhada e mede aproximadamente um mm de comprimento, porém, uma fêmea grávida pode chegar a medir o tamanho de uma ervilha. É a fêmea adulta e fertilizada quem possui a capacidade de perfurar a pele do homem, porco e outros mamíferos, com suas partes bucais. Ela aloja-se dentro do corpo do hospedeiro até que o último segmento abdominal esteja paralelo com a superfície da pele. Alimenta-se de seu sangue e expele os ovos maduros pelo ovipositor, ficando estes na ponta de seu abdômen. Uma fêmea pode produzir de 150 a 200 ovos durante um período de 7 a 10 dias.


Voltando ao principal assunto, a casa de Ricardo é dividida em quatro cômodos. O telhado de madeira é mascarado com uma espécie de tecido que serve para impedir a entrada dos raios solares. A mesa e a pia da cozinha, que recepcionam a casa, estavam tomadas de pratos, copos e talheres sujos. Ao entrar na residência fui obrigada a trancar a respiração, pois de dentro da casa vinha um cheiro insuportável. Cocei o nariz e disfarcei para que Charles não percebesse o meu mal estar. Ao ver grande quantidade de insetos que andavam sobre a louça que enchia a pia, a única coisa que eu desejava naquele momento era que Charles não me oferecesse um cafezinho ou algo parecido.


De repente, olhando para frente, deparei-me com um homem estirado numa cama logo à frente, no canto superior da meia água. Era ele: Ricardo!


Imaginei encontrá-lo em uma cadeira de rodas. Porém, as condições precárias só o permitem se conformar com a cama de madeira que sustenta um colchão fino e sujo, ao qual Ricardo passa e passou grande parte de sua vida.


Ao tentar conversar com ele, tive dificuldades em ouvi-lo. Isso porque ele não consegue se expressar. O irmão, Charles, quase não permitia que ele falasse, respondendo por ele a todas as perguntas que eu fazia.


Ricardo, assim como Charles, é um mulato de mais ou menos 1,60m de altura. Ele tem olhos grandes e pretos que transmitem uma expressão de medo. As barbas não-feitas e as unhas compridas sinalizavam a incapacidade de cuidar da higiene pessoal. Mesmo já sabendo do caso, perguntei o que o fazia estar naquela cama.


- Ele teve derrame, respondeu o irmão.


De acordo com um dos artigos publicado no site da Lincx – Serviços de Saúde, com sede em São Paulo, a tuberculose é uma doença que pode afetar virtualmente qualquer um dos sistemas orgânicos e pode ser devastadora se não tratada adequadamente. O recente aumento na incidência de tuberculose na população, tanto entre os indivíduos imunodeprimidos quanto entre os imunocompetentes, fez com que esta doença passasse, novamente, a ser uma das prioridades mundiais em saúde. A tuberculose pode exibir uma grande variedade de achados clínicos e radiológicos e tem propensão a se disseminar a partir de um foco primário. [...] Até meados da década de 80 havia um declínio marcante na prevalência de tuberculose. Porém, a partir do início da pandemia de AIDS e com o aparecimento de formas resistentes do Mycobacterium tuberculoses houve um ressurgimento da doença. Além dos pacientes imunodeprimidos, havia outros grupos de maior risco para a doença: moradores de rua, alcoólatras, prisioneiros, imigrantes e população geral vivendo em más condições sanitárias, idosos, pacientes internados em asilos, Ricardo era alcoólatra e usuário de drogas antes de ser portador da doença.
Porém, eu sabia que não se tratava somente de um derrame. O medo do preconceito o fez mentir.


Relevei e questionei os detalhes da doença. Ricardo não movia a mão direita e a perna. Há vinte anos, ele teve tuberculose, o que gerou o derrame. Esse problema se deu pouco depois de um impasse ainda maior. Uma mulher, que também estava no local assistindo a toda cena, questionou:


- Ele não tem Aids?


O irmão rapidamente me olhou assustado, vagarosamente baixou a cabeça e, com um ar de tristeza e desmotivação, respondeu positivamente.


Depois de um longo papo com Charles (ele nunca deixava o irmão responder), pude perceber que o motivo que o fez me deixar entrar e conversar com a família era a esperança de algum dinheiro ao fim da conversa.


Pude perceber ainda mais as reais intenções de Charles quando conversei com a coordenadora do programa DST/HIV/Aids, a assistente social Samira Abinur. O programa é desenvolvido em Içara e, segundo a coordenadora, atualmente atende a 232 pessoas entre portadores de Aids, HIV (nesse caso a doença ainda não se desenvolveu) e doenças sexualmente transmissíveis.


Em julho de 2008 a ONU divulgou dados apresentando o Relatório Global sobre Epidemia de Aids 2008, realizado pelo Programa Conjunto das Nações Unidas sobre DST/Aids (Unaids). O levantamento é baseado nos relatórios enviados por 147 países às Nações Unidas e na revisão global de estimativas a partir dos novos dados disponíveis em cada país. Os números computados revelam que houve uma queda no número de infectados, porém o seu nível ainda é inaceitável: são 33 milhões de pessoas no mundo com a doença. A África Subsaariana é a região mais atingida, com 22 milhões de pessoas com Aids. O país com o maior índice de contágio na América Latina é o Brasil, com cerca de 730 mil pessoas infectadas. A cada ano, 30 mil pessoas contraem HIV no país. O relatório constata que o número de pessoas com o HIV está aumentando devagar, por causa das terapias que prolongam a vida dos portadores, porém a infecção está longe de ser eliminada.


Conversei com Samira pelo telefone, a voz doce e despojada demonstrou interesse e gosto pela profissão. Contrariando as afirmações de Charles a moça me contou que Ricardo é sim atendido pelo programa e que, inclusive, já esteve participando de algumas terapias que são oferecidas para o grupo. Ela me contou que antes de ser portador do vírus Ricardo era usuário de drogas a consumia bebidas alcoólicas frequentemente. Segundo Samira, em casos como este, a recuperação é mais difícil já que o paciente não tem como principal objetivo a cura, mas a vontade de voltar aos vícios. Perguntei a ela sobre a possibilidade do município dispor uma clínica com todos os cuidados necessários a sua doença e, para cobrir os gastos, depositar a sua aposentadoria na conta dessa clínica, como Charles havia sugerido entre os intervalos das minhas tentativas de conversa com Ricardo.


- Hoje o município não dispõe de uma clínica especificamente para casos como o de Ricardo. O que dá para fazer, inclusive nós até já fizemos, seria interná-lo em um asilo para lá ele receber os cuidados. Porém Ricardo é muito novo, dificilmente seria aceito este recurso, explicou a coordenadora.


Depois disso cogitei a possibilidade do município doar uma cadeira de rodas a Ricardo (eu queria de qualquer maneira que esta história tivesse um final feliz).


- Essa seria uma questão a ser tratada com a secretaria de saúde. Atualmente cada um dos pacientes que atendemos no programa gasta, em média, R$ 1.500 a 3.000 reais. O tratamento é caro porque os remédios em si são caros e os exames também tem um custo alto.


O programa DST/HIZ/Aids, alem de distribuir remédios aos portadores sem condições financeiras, disponibiliza tratamento psicológico, terapia em grupo, tratamento clínico, toda parte social, alem de dispensar cestas básicas. Samira contou que Ricardo não tem interesse em usufruir dos recursos disponibilizados. Segundo ela ele até começa, mas sempre acaba “desistindo no meio do caminho”. Os custos para o programa são disponibilizados pelo governo do Estado.


De volta ao episódio do dia 4 de abril, data em que visitei o bairro Mirassol. Ricardo me olhava assustado, tudo parecia estranho e a minha presença parecia o incomodar. Ao mesmo tempo, seu semblante triste mostrava que ele queria dizer algo, mas não tinha coragem.
De volta ao cenário no bairro Mirassol, Charles começou a falar que a vida do soropositivo é dentro daquela pequena casa.


- Eu não tenho forças para levá-lo para andar nas ruas. Não temos condições de comprar uma cadeira de rodas e por isso a vida dele é aqui dentro.


Perguntei a Ricardo qual era o sonho dele. Mesmo com dificuldade em falar e sendo interrompido pelo irmão, as palavras do enfermo foram claras e objetivas:


- Eu queria uma cadeira de rodas.


Ricardo Tereza, aos 41 anos, lembra com tristeza de sua juventude. Ao se relacionar com uma mulher, aos 20 anos, ele contraiu o vírus. Sem entender muito bem do que se tratava, ele seguiu a vida normalmente até se encontrar no fundo de uma cama.


É bom abrir um parêntese para lembrar que este caso é semelhante ao de muitos brasileiros que não possuem condições financeiras para uma boa educação. Eles tendem a ter pouco acesso às informações sobre como se proteger. Isso porque a maioria não sabe ler e o que vê pelas ruas não é compreensível ao seu vocabulário. Também pode ocorrer o caso de pessoas pobres, como Ricardo, tenderem a viver na periferia das cidades ou em áreas rurais remotas, que não recebem muitas visitas de pessoas com informações para compartilhar.


Após o vírus se alastrar, Ricardo teve problemas respiratórios, que paralisaram seus membros direitos, braço e perna, tornando-o impossibilitado de locomoção. A mãe de Ricardo e Charles tem problemas de coração. Charles contou que ela os visita duas vezes por mês, pois mora com a outra família, em Porto Alegre.


De acordo com o Censo Demográfico de 2000 (IBGE), quando a questão da deficiência foi investigada pela última vez, o Brasil tinha cerca de 1,5 milhões de deficientes físicos, destes mais de 930 mil usuários de cadeiras de rodas. Muitos têm uma vida ativa, trabalham e estudam e, por isso, precisam se movimentar pelas cidades. Eles vivem em busca dos seus direitos, exigindo que cada cidade promova o bem-estar que cada um necessita.


Ricardo não tem cadeira de rodas, nem conhece esses direitos. Tudo que deseja é ver a luz do dia e ter acesso à pequena vila em que reside.